Conheci o Eduardo em uma tarde fria de inverno, era julho e eu estava de férias...
- Leah!!!!!!!!!!!!!!! Vamos no festival de bandas que vai ter lá perto da casa da Juh? - Tricia, minha amiga tentando me convencer a acompanha-la, como ela tinha um namorado rockeiro que tocaria no festival ela não queria ir sozinha.
- Ah não... Um monte de rockeirinho maluco, gente pertubada e drogada... Não vou! Quer dizer... Ah, você sabe que eu não gosto de rockeiros.
Eu tinha uma certa aversão a rockeiros por causa de um amigo que começou a tocar em uma banda de rock e meses depois teve que ser internado por overdose de cocaína.
- Vai ser legal... Eu juro!!! E o Caique vai tocar...
Caique era um paquera de colégio, eu achava ele bonitinho, mas era só. Nada ao ponto de enfrentar um show de rock para vê-lo.
- Ah não sei...Não quero...
- Ah... Tudo bem, fica em casa sozinha em pleno sábado a noite. Aproveita e vai desenhar, depois quem sabe, você assiste um filme bem depressivo e fica se empanturrando de dozes e se sentindo sozinha enquanto eu estou toda feliz curtindo a noite...
As vezes a Tricia era bem convincente.
- Tá... Você me convenceu! Eu vou! Mas olha lá hein? É a última vez.
E de fato foi a última vez que eu fui lá. Solteira.
Ao chegar no prédio onde iria acontecer o festival eu fiquei a observar todas as pessoas daquele lugar, todas tão descoladas, me pareciam tão independentes e diferentes... Talvez rebeldes tentando fazer a diferença... Me senti uma riquinha fútil e totalmente deslocada daquele ambiente. A Tricia resolveu ir buscar algo para nós bebermos e eu fiquei esperando perto de um vaso de flores no corredor que dava acesso ao palco... Do outro lado havia um grupo de pessoas que aparentavam ser de um banda, talvez uma das que se apresentariam naquela noite, eles tinham instrumentos e estavam vestidos de uma forma esquisita. Um dos caras parecia não tirar os olhos de mim, parecia que ele tinha encontrado uma éspecie de tesouro e estava a examinar o local para a qualquer momento ir lá e buscar a jóia... Tá, tudo bem que talvez eu tenha distorcido um pouco os fatos, mas a verdade é que eu também não conseguia tirar os olhos dele. Ele era lindo.
Pele clara, cabelos negros, não muito alto. Sorriso encantador, olhar extremamente sedutor e a barba mal-feita totalmente combinando com sua camiseta xadrez e a calça jeans rasgada. Eu não queria, mas não conseguia parar de pensar... Como ele era charmoso!
Tricia chegou e eu estava completamente desligada, ela me chamou 2 vezes e eu nem escutei, só conseguia pensar (e as vezes olhar) no cara de camisa xadrez.
-Olha aquele carinha ali... Não para de te olhar... Ele é lindo né?! - Tricia era o tipo de amiga que adora arranjar namorado para as outras, talvez porque o namoro dela seja o mais perfeito do mundo. Eu confesso que as vezes sentia um pouco de inveja dela, as vezes eu queria ter um namorado maravilhoso como o Jeff.
- É?... nem reparei... - eu respondi ainda meio atordoada -Talvez seja só impressão sua...
- Ahh, não é não... Olha lá, o amigo dele virou agora também...
- Triciaa... Para de olhar!! Que vergonha!
- Talvez devessémos pedir o telefone dele, mas só depois... O show vai começar agora e eu quero ver o Jeff tocar!! Vamos...
- Tá... vamos sim...
As bandas começaram a se apresentar e eu não conseguia parar de pensar no carinha de camiseta xadrez... Será que ele iria se apresentar? Era a minha esperança!
- UHUUUUUUUUUUUUUUUUUU!! ROCK ROCK! ONWWWWWWWWWWW... Leahhhh isso é demais! Olha como Jeff toca... olha...
- É, é... Muito bom... - Tricia estava muito empolgada, mas eu definitivamente estava em outro mundo.
- O que você está procurando? - Ela me olha curiosa.
- Nada, eu tô curtindo o som... Muito legal né? - começei a fazer uma dancinha estranha.
- Você tá procurando o carinha de camiseta xadrez né?!
- Não... Eu só estou olhando por ai...
- Sei, Sei... Te conheço Leah... Depois agente vai atrás dele, agora curte o som!!!
- Certo. - Eu pensei, talvez eu pudesse deixar de lado os pensamentos e me divertir um pouco né! Afinal, foi para isso que eu vim... - Quando eu dei por mim a banda já tinha sapido do palco e um cara que parecia o locutor estava a anunciar a próxima banda...
E esses foram os 34MdeLá galera! Som iradoooo!!!... Curtimos! Agora sobe ao palco os veteranos da casa trazendo seu mais novo sucesso... "Você e eu..."
♪ Você e eu, e todas essas pessoas, nada para fazer, nada a perder...
E somos eu e você, e todas as pessoas,
Eu não sei porque não consigo tirar meus olhos de você... ♬
Eu não podia respirar. Eu não conseguia me conter... Era ele, o cara mais lindo daquele lugar estava ali em cima do palco, tocando, olhando para mim... E só para mim. Parecia um sonho, de fato, era o ínicio de um...
- Eles tocam bem né?
- Tocam... muito bem - Eu respondi ainda sem folêgo...
- Você devia ir atrás dele... Trocar e-mails...
- Ai... Ele é tão lindo, ele cantou olhando para mim...
- Então vai lá falar com ele...
- Não, eu não!
- Porque?
- Ah...
Tricia já estava pronta para me dar um sermão, ela odiava gente sem iniciativa e com certeza iria ficar uns 15 minutos discutindo até me convencer a ir lá. A minha sorte é que um cara nos interrompeu e me entregou uma espécie de pacote.
- Ai... Será que é uma bomba? - perguntou Trícia toda assustada.
- Não seja boba, deve ser droga, vou jogar fora...
- Ah... Mas e se for do carinha?
Fiquei balançada. Qualquer possibilidade de ser dele me fazia querer abrir o pacote mesmo com todos os riscos. No fim das contas resolvi abrir logo aquilo e acabar com o mistério.
- Que lindo... Você tem que ir lá... Agora! - Tricia estava suspirando.
- Será? E se... E... não sei... Acho que não devo.
- Não seja boba Leah... Olha isso...
Essa palheta te pertence, por meio dos sons eu espero poder ter dito tudo que eu queria dizer a você... Não sou bom com palavras, mas sou bom com palhetas... Se quiser ouvir meu solo me encontre atrás do prédio as 21:00hrs.
- Fofo! Mas não sei... E se ele for um mulherengo barato? Eu não sou boba.
E talvez eu não fosse mesmo, mas no fundo do meu coração, aquela noite, eu queria ser boba para sempre...
- Oi! - Eu disse toda desajeitada...
- Você veio... - ele me olhou realmente surpreso - Achei que, sei lá, você não viria...
- É... eu fiquei com receio... mas... sei lá... Não sei porque... Queria muito te ver denovo.
- É estranho... agente nem se conheçe.
- É...
- Você vem sempre aqui? Quer dizer, eu nunca te vi por aqui...
- Na verdade é a primeira vez...
- E pretende voltar?
- Talvez...
- Se eu pedir, você volta?
- Não, sei... acho que nem nos conheçemos... Nem sei seu nome...
- Você tem razão.. desculpa... eu disse, não sou bom com as palavras... - Ele riu e continuou me encarando como se eu fosse uma espécie de diamante a ser lapidado... - Bruno! Meu nome é Bruno...
- E então bruno, o que você faz além de tocar guitarra em festivais?
- Eu respiro. Isso conta?
- Deve contar - eu ri, apesar de meio tímido ele parecia bem divertido.
De repente estavamos em silêncio por segundos demais, o desconforto era visível tanto da minha parte como da parte dele, fiquei pensando se ele não estava me enganando, afinal, todo mundo sabe que tem 2 tipos de cara que não dá para se levar a sério, aqueles com um olhar sedutor e aqueles com uma guitarra na mão. E ele tinha as duas coisas.
- Sabe... Eu não sou assim.
- O que? Você não é como?
- Tímido.
- Você não parece mesmo o tipo de cara tímido.
E não sou, mas você me deixa sem jeito.
Eu corei e sorri...
- O que eu posso fazer para acabar com sua timidez?
- Dizem que um beijo cura todas as coisas...
E foi ali, embaixo das estrelas, ao som de Iris do Goo Goo Dolls que eu me apaixonei da forma mais gostosa que uma mulher pode se apaixonar... Sem esperar, sem querer, sem poder controlar. Ahh.. E se for relevante, ele tinha cheiro de cravo... Cravo e canela.

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